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sábado, 23 de fevereiro de 2019

Isabel Miguel: "Não quero ser polémica, mas atualmente não considero que exista “literatura”


Maria Isabel Simões Miguel Melo Cardoso nasceu a 12 de agosto de 1972, em Mainz- Alemanha, descobriu na adolescência o encanto da língua mais bela do mundo através da literatura portuguesa. Curiosamente a Poesia surgiu quando leu Fernando Pessoa, Goethe, Poe, Blake e Florbela Espanca… Nesse dia a sua vida mudou para sempre. Atualmente é professora Português, Inglês e Alemão, é também Coordenadora do grupo de Línguas e Formadora de CLC/LEI na Escola Profissional de Salvaterra de Magos; é também Formadora LC na Escola Profissional do Vale do Tejo, Subdiretora da Revista Livros & Leituras, Professora Assistente na área das Bibliotecas Escolares no ISLA – Santarém, Investigadora da Unidade Centro de Investigação, em Economia e Gestão da Universidade de Coimbra e Prof. Convidada do Mestrado em Liderança na Academia Militar.

Tem as seguintes obras publicadas:

- 16 Autores, coletânea editada em 2015
- Um lugar surpreendido pelo olhar, coletânea editada em 2016
- Insuficiência Acutilante, poesia, 2016
- Sou Conto, Sou Poema, coletânea editada em 2017
- Do Nada, coletânea editada em 2018


Como e quando começou a interessar-se por literatura?

O interesse e gosto pela literatura começou de uma necessidade e depois transformou-se em Amor. Aos 13 anos voltei para Portugal e na escola tinha muitas dificuldades na leitura e compreensão das regras gramaticais essenciais, os meus pais sempre compraram livros portugueses, Eça de Queirós e Júlio Dinis, resolvi começar a ler “Os Maias” para entender melhor a língua portuguesa e depois não parei mais, lia tudo o que encontrava. Anos mais tarde tive um professor que declamava Fernando Pessoa e Camões, nasceu então a paixão louca pela poesia. Necessidade, amor e paixão.


O que despoletou o seu interesse pela literatura?

Após a minha viagem pelos livros que tinha em casa, comecei a frequentar a biblioteca da escola e a biblioteca municipal, descobri novos autores, nasceu a Isabel Leitora.
Eu Isabel, sou uma leitora compulsiva. Descrever-me como leitora? Quando andava na escola o meu pai foi chamado à escola… acusação? “A sua filha lê demais. Vai à biblioteca dois em dois dias e lê nos intervalos, devia falar com ela!” O meu pai contou-me esta história anos mais tarde, já eu era adulta. O meu primeiro livro intitulava-se “Flo mit guter Laune” de Wilhelm Topsch, tinha cinco anos. A história de Flo é uma narrativa maravilhosa de um menino que espalha alegria pela cidade. Ainda hoje quando estou triste releio algumas páginas deste livro. O livro seguinte que agitou o meu ser mais profundo, foi “O Jogo das contas de vidro” de Hermann Hesse. A narrativa de um homem totalmente aberto a qualquer tipo de saber e erudição, absorvendo todos os ensinamentos que vai recebendo na procura de uma compreensão do mundo que o envolve. Em Castália no ambiente futurista são realizados os jogos das contas de vidro. O percurso de Knecht é um despertar intelectual e interior, no entanto, a morte do protagonista não ensombra a beleza desta obra fantástica. Outro livro marcante é "A Vida em Surdina" de David Lodge, em português “Gente feliz com lágrimas” de João de Melo e “O jardim sem Limites” de Lídia Jorge, a lista é infinita. "So many books, so little time" Frank Zappa.

Como nasceu a paixão pela escrita?

A paixão pela escrita nasceu com o rio Tejo, o Tejo era o tema de um concurso de poesia na escola…escrevi dois poemas e ganhei o primeiro e segundo lugar, desde então a poesia é a minha essência e a minha alma, quando ocorrer momentos de ausência de escrita fico perdida, como dizia Mário de Sá Carneiro “Perdi-me dentro de mim”, é doloroso e angustiante quando não escrevo, entro em depressão, é horrível. A escrita faz parte de mim e sem ela estou incompleta.

O que mais o atrai quando escreve?

A liberdade que sinto, a leveza, de certo modo o alívio… é como se as palavras que carrego tivessem a profunda necessidade de se libertarem de mim, deixarem de ser minhas… amo mais quando escrevo, consigo amar-me e amar os outros quando escrevo, sou mais feliz.

Por que motivo resolveu escrever livros?

Penso que é o sonho de qualquer poeta! Posso estar errada… Mas saber que alguém lê as minhas palavras e as sente é profundamente reconfortante.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

O meu livro Insuficiência Acutilante porque retrata o meu renascimento, estive quase 15 anos sem escrever uma única linha… este livro sou eu, a Isabel de novo, viva, inteira, livre para escrever. As quatro coletâneas em que participei por iniciativa do projeto Autor Publica são uma forma de rever amigos e estar rodeada de pessoas boas. A primeira vez que vi os meus poemas em páginas de um livro, 16 Autores, senti uma alegria indescritível, chorei de alegria, nunca vou esquecer as palavras do meu querido amigo Paulo Maia Domingues, “Escreve miúda, escreve!”

Em que é que se inspira para escrever um livro?

São palavras perdidas, frases incompletas que oiço na rua, sons. Como disse anteriormente, necessito da escrita para ser e para respirar, qualquer coisa pode inspirar-me, as minhas dores, um botão amarelo intermitente de uma máquina, momentos, a inspiração espreita a cada canto, basta que para isso eu esteja atenta e delicadamente dedicada à chegada das palavras.

Em que momentos do dia escreve habitualmente?

Sempre ao final da tarde, necessito de alguma tranquilidade para a escrita, o sossego de uma música e os dedos nas teclas do computador, raramente escrevo em papel, a poesia vai diretamente para o ecrã o que facilita a visualização do poema. Passadas algumas semanas revejo os textos e expurgo uma ou outra palavra.

O que desencadeia a escrita em si?

Como já referi, as palavras que vou escutando por aí, sentimentos, dores, na verdade qualquer coisa pode desencadear um poema em mim basta que eu opte por não bloquear as palavras que vão surgindo…

Quais são as suas referências literárias?

Ao nível da poesia Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro, Edgar Allan Poe, William Ernest Henley, Pablo Neruda, Sylvia Plath, W. H Auden, Emily Dickinson, William Blake, E.E. Cummings, T. S. Eliot, Marianne Williamson entre outros. No que diz respeito à prosa, Lídia Jorge, José Saramago, Eça de Queirós, Vígina Wolf, Zadie Smith, Stieg Larsson, Literatura Sueca em geral, Mo Yan, Nick Hornby, Mia Couto, Natália Correia, tanto, tantos, tantos…

Como vê o mundo atual da literatura em Portugal?

Não quero ser polémica, mas atualmente não considero que exista “literatura”, existem pessoas que aparecem nas capas de livros e que as editoras vendem apenas e pura simplesmente porque são alguém que aparece ou apareceu algures, há muitos livros publicados em língua portuguesa… depende, no entanto, da definição de literatura, ou que consideram literatura.

Para quando um novo projeto editorial?

O próximo livro de poesia está a nascer, aos pouco, lentamente. No ano final de 2019, início de 2020 talvez esteja concluído, não gosto muito de datas… é um nascimento que
levará o seu tempo, o título provisório é “Recordações aguçadas” … ainda não sei bem, o título normalmente surge num momento inesperado.

Agora que já conhece a revista Livros & Leituras, que opinião tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Projetos que divulgam a leitura e os livros são sempre de enaltecer e terão todo o meu apoio. No mundo dos livros, existem novos autores desconhecidos do grande público e a sua divulgação é sem dúvida positiva, deste modo podemos ter acesso a um mundo que está para além do top 10 das editoras. Obrigada!

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