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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Jorge Chichorro Rodrigues: "Quando se escreve a solidão acaba"



Jorge Chichorro Rodrigues nasceu em 1958, na Graça, em Lisboa. É licenciado em Tradução pelo I.S.L.A. e em Estudos Portugueses pela Universidade Autónoma de Lisboa; defendeu a tese de mestrado intitulada «Da Comunidade Luso-Brasileira à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa» na Universidade Aberta. Este estudo encontra-se publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa de 1997. Tem artigos publicados em diversos jornais, nomeadamente no Diário de Notícias, sobre a temática da lusofonia. No Dicionário Temático da Lusofonia tem uma entrada sobre a CPLP. Professor de Português, já deu aulas na Guiné-Bissau e no Brasil, país a que se sente profundamente ligado. É autor de «Fi-Luso-Fando» (Uma Viagem Poética pela Cultura Portuguesa), «Ser Português» (Ensaio Imagístico), «O Princípio do Mundo» (romance sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral), «O Búzio Encantado» (romance), «Deus, Poesia, Natureza» (livro de aforismos), «A Voz da Inocência» (prosa poética). Já traduziu, entre outras obras, «A Grande Epopeia dos Celtas». Tem vários trabalhos literários que espera publicar no futuro. Escreve diariamente poesia e prosa poética, que publica na sua página do facebook. Neste momento está empenhado na escrita e na publicação da coleção «Mestres da Língua Portuguesa», que começou por se chamar «Contado às Crianças Adultas». Esta coleção, dedicada a autores relevantes de Língua Portuguesa, conta já com dezasseis autores publicados – Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Eça de Queiroz, Luís de Camões, Pe. António Vieira, Eugénio de Andrade, José Craveirinha, Sophia de Mello Breyner Andresen, Almeida Garrett, Cesário verde, Bocage, Florbela Espanca, Pêro Vaz de Caminha, Carlos Drummond de Andrade, Machado de assis e José de Alencar. O 17º autor, a sair em breve, será José Saramago, que venceu o Nobel da Literatura em 1998. Depois virão Alda Lara, D. Dinis, Gil Vicente, e outros autores do espaço de língua portuguesa. É provável que a coleção fique concluída quando chegar ao 25º título, podendo vir a contemplar um autor de Timor-Leste.

O livro da coleção «Era uma vez... Fernando Pessoa» foi adaptado para teatro pelo Teatro Passagem de Nível, de Alfornelos, tendo ganho o prémio CONTE Rui de Carvalho 2016 como melhor espetáculo. O próprio autor chegou a estar em palco, nas primeiras representações, fazendo o papel de Alberto Caeiro.


Como e quando começou a interessar-se por literatura?

Desde cedo comecei a interessar-me por literatura. Mas interessei-me de forma desorganizada, lia livros um pouco ao acaso, ainda na adolescência. Gostava de sentir a espessura de cada livro, o cheiro, e o conteúdo vinha depois, não por ser menos importante, mas porque era como o culminar, o ponto alto de um galanteio, que era namorar a aparência do livro. Quando vem a paixão pelo conteúdo, não se quer parar, porque se compreende que a humanidade é complexa e infinita, sendo cada livro apenas um grão de areia de um universo que nunca mais acaba.

O que despoletou o seu interesse pela literatura?

Penso que já respondi atrás: a complexidade e a infinitude da humanidade. E cada ser humano tem lá dentro a humanidade inteira. A literatura tem consigo ideias, sentimentos, paisagens da alma, emoções, pontos de vista, labirintos, «puzzles». Ela leva-nos para todo o lado sem termos de sair do mesmo sítio.

Como nasceu a paixão pela escrita?

Nasceu da experiência de escrever as primeiras letras e de perceber que elas me podiam levar ao mais fundo de mim. Quando se escreve a solidão acaba. A escrita é uma dádiva maravilhosa, mais do que as pernas, os braços, os órgãos do nosso corpo – ela é uma espécie de segunda alma que nos foi dada. A escrita permite pairar acima do corpo e do mundo, é uma forma de levitação. Percebendo isso, fiquei viciado nela. Ela também me fez crer que a realidade é pouco, não basta, e é fundamental o sonho.

O que mais o atrai quando escreve?

Atrai-me a descoberta. Atrai-me ir desvelando mundos que estavam escondidos. Escrever é recordar, recordar o que está escrito no universo e atualizamos. É uma atualização do que está gravado na nossa alma. E nunca chegaremos ao fim, porque uma alma não tem fim, e a nossa vida, infelizmente, é muito curta. Escrever ajuda a remediar e pode ser um júbilo imenso, porque nos ajuda a amar o mundo e os nossos semelhantes, pela compaixão. Sem a escrita, a minha vida não faria sentido.

Por que motivo resolveu escrever livros?

Não foi para ser famoso nem para ganhar muito dinheiro. Foi por necessidade espiritual, diria que mesmo física. A palavra livros parece-me até muito ambiciosa. Um livro não é mais do que um aglomerado de palavras que se formaram na nossa mente, como nuvens que se amontoaram no céu e pedem chuva. Deve ser tão natural como a chuva que cai ou como o sol que brilha. Não se deve dizer: «Vou escrever um livro», isso dificilmente aconteceu comigo, mas aconteceu. O ideal é chegar-se ao fim de um aglomerado de palavras, coerentes e harmoniosas entre si, e poder dizer-se, espantado: «Olha o que eu fiz: um livro!» Esse livro será como um dia de sol, ou como uma bela praia ao fim do dia.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Gostei de escrever todos os livros, embora uns escrevesse com prazer e outros com dor, o que, admito, é um paradoxo. Alguns livros escrevi por dever do ofício, não direi quais, o leitor que adivinhe, outras escrevi como espontaneidades da alma, com um prazer divino. Não direi títulos para não melindrar nenhuma obra, elas são como as pessoas e, mais, adivinham o que vai no nosso pensamento, sobretudo se somos o autor delas. Amo-as a todas e amo também as que escrevi com dor.

Em que é que se inspira para escrever um livro?

Inspiro-me na vida, nos seres humanos, no mundo, nas paisagens sempre cambiantes da minha alma. Mas, repito, escrever um livro não deve partir desta ideia: «Vou escrever um livro», mas desta outra: «Vou escrevendo palavras, e depois logo se vê...» Há aglomerados de cem palavras que dão melhores livros do que aglomerados de milhões de palavras.

Em que momentos do dia escreve habitualmente?

Escrevo a qualquer momento, desde que tenha o computador à mão. Sou viciado na escrita. Já me levantei a meio da noite para ir escrever um poema, porque ele insistentemente me pedia para ser escrito. E quem mo ditava chegava até mim através de sonhos.

O que desencadeia a escrita em si?

Já respondi a essa questão mais atrás: o desejo de descoberta, o querer ouvir-me e ouvir a música do universo, a curiosidade de querer chegar ao que está gravado na alma coletiva da humanidade e na minha própria.

Quais são as referências literárias?

Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Pe. António Vieira, Cervantes, Shakespeare, Montaigne, Camões, Gil Vicente... Gosto muito de livros da área do esoterismo, da espiritualidade, porque o ser humano, não esqueçamos, é um ser espiritual. Ainda ontem lia um texto de Fernando Pessoa em que ele dizia que é impossível haver grandes poetas materialistas... O materialismo é a vibração mais baixa da nossa alma – e vivemos numa época catastroficamente materialista...

Como vê o mundo atual da literatura em Portugal?

Há quem escreva muito bem em Portugal, é tudo o que tenho para dizer, escusando-me, por motivos óbvios, a referir nomes. Infelizmente, lê-se muito pouco, e ainda mais infelizmente, escreve-se cada vez pior, entre os não escritores e mesmo entre quem se proclama escritor, de forma unilateral. Mas é um direito sagrado de cada um escrever e publicar livros.

Para quando um novo projeto editorial?

Tenho muitos. O atual, em andamento, é a coleção «Mestres da Língua Portuguesa», que vai no 16.º autor publicado, sendo o próximo, a ser publicado em breve, José Saramago. Tenho muito material disperso, milhares de poemas, de pensamentos e de fragmentos de prosa poética, e tenho, por exemplo, um livro de diálogos que penso publicar com o título «O Sol e a Lua». Tenho também um livro de poesia sobre a Guiné-Bissau, onde fui coerente, e outro sobre a Justiça, todo em verso, ao longo de dezenas de páginas, em que se desce ao Inferno de Dante e depois se sobe ao Céu, numa viagem pela alma humana e pela história da humanidade.

Agora que já conhece a revista Livros & Leituras, que opinião tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Penso que é extremamente louvável, por incentivar ao conhecimento e à fruição da literatura. Evidentemente, só tenho a dizer bem de todos aqueles que tornam possível este projeto, numa sociedade que bem precisa de ir para além do consumismo e do materialismo reinantes - Escritor

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