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sábado, 2 de fevereiro de 2019

Tiago Moita: "Considero a poesia a essência suprema da vida e de todas as Artes"



Como e quando começou a interessar-se pela Literatura?

O meu fascínio e prazer pela leitura começou mais cedo que o meu interesse pela literatura. Lembro-me de andar na 3.ª classe e ler maravilhado os contos infantis de Sophia de Mello Breyner Andresen, de La Fontaine dos Irmãos Grimm ou mesmos os romances de Júlio Verne ou L. Frank Baum. Ler foi sempre para mim tão fascinante como embarcar numa aventura sem precisar de sair do lugar onde estava, que ganhou mais importância quando fui para a Universidade até eu perfazer 28 anos – o momento em que eu percebi que a escrita e a leitura passariam a fazer parte da minha vida.

O que despoletou o seu interesse pela Literatura?
O meu interesse pela literatura derivou de um encontro com o Destino com uma jovem escritora, que hoje não só é minha grande amiga como um grande poeta, chamada Sara F. Costa, no Verão de 2003 em São João da Madeira, que me emprestou para ler o livro de Poesia “Horto de Incêndio” de Al Berto. No primeiro instante em que li o primeiro poema desse extraordinário poemário, despertou em mim uma curiosidade desmesurada em ler e pesquisar tudo acerca dos maiores clássicos da Literatura universal mais antiga, e também, a mais contemporânea que, até hoje, não acabou.

Como nasceu a paixão pela Escrita?

A escrita sempre me fascinou desde o dia em que comecei a desenhar as primeiras letras e a procurar os significados de alguns conceitos nos dicionários escolares que os meus pais me ofereceram quando eu frequentava a escola primária (1.º Ciclo). Todavia, foi só a partir dos 15 anos que arrisquei escrever os meus primeiros poemas, sem ter qualquer tipo de experiência ou contacto mais direto com a Poesia. A paixão prolongou-se durante os tempos da faculdade, mas foi só aos 28 anos que comecei a entender a descrita mais como uma condição de vida e uma necessidade tão importante para mim como respirar.

O que mais o atrai quando escreve?

Desde muito novo que sou viciado pelo absurdo, pela loucura e pelo mistério. Lembro-me de ler os livros de Edgar Alan Poe e Agatha Christie e sentir um pequeno arrepio na espinha, da mesma forma que sentia um fascínio e uma expectativa cada vez que lia os livros de Saramago, Kafka, Gogol, Orwell ou Phillipp K.Dick. Tentar perceber, pela leitura como o ser humano evolui e encara a vida a partir destes três elementos é, para mim, a melhor forma de tentar compreender a condição humana.

Por que motivo resolveu escrever livros?

José Saramago costumava dizer que só escrevia livros quando tinha algo para dizer. Eu vou mais longe do que ele e digo que só escrevo livros quando tenho algo para gritar. Dizer enquanto fazer um mero relato que um dos nossos sentidos faz a respeito de um determinado aspeto da vida humana é para mim insuficiente, comparado com a quantidade de mistérios e perguntas que um grito acerca de quaisquer circunstâncias, ou reação, capaz de provocar no subconsciente de um escritor não só direito como o dever de escrever uma obra que seja o reflexo do comentário que fez acerca desse grito que pretendeu ilustrar numa obra escrita pelo seu próprio punho.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Todas as obras que escrevi me dão prazer de formas diferentes. Não há assim um livro que me desse mais prazer do que o outro. O meu novo romance “A Fórmula do Peregrino” (Chiado Publishers, 2018), por exemplo, foi um deles. É, sem dúvida, um livro muito interessante do qual gostei imenso de escrever. Foi um bocado morosa - e penosa – a sua conclusão porque envolveu uma matéria sobre a qual não é a minha praia que é a Ciência, mas que é muito importante porque aborda os motivos que provocaram a guerra e, ao mesmo tempo, a aliança entre a Ciência e a Espiritualidade e até onde pode levar o medo, o ódio, o preconceito e o fanatismo do ser humano.

Em que é que se inspira para escrever um livro?

Toda a minha inspiração deriva de um intenso estado de observação aguçada e holística que faço à realidade cada vez que me encontro com ela num passeio espontâneo por uma localidade, numa troca de palavras, num sussurro trazido pelo vento, numa notícia de um jornal, numa canção, etc. Tudo aquilo que desperte em mim uma curiosidade insaciável para levantar o véu das aparências do mundo e revelar algo que o homem não está preparado para ver, ouvir e falar é alvo dessa inspiração que leva a que escreva livros mais profundos e desassossegantes, seja de que género ou tema for.

Em que momentos do dia escreve habitualmente?

Normalmente, escrevo depois da hora do almoço. É muito raro eu começar a escrever assim que acordo ou tomo a primeira refeição do dia. Não sei bem porquê, mas a tarde funciona bem, para mim, para a prosa, enquanto a noite funciona bem para mim para a Poesia. Talvez o silêncio da noite tem algum efeito em mim que faça com que eu escreva mais Poesia do que prosa. Não lhe sei dizer.

O que desencadeia a escrita em si?

A escrita, para mim, desencadeia um misto de sentimentos anacrónicos. Tanto sou capaz de manifestar prazer e dor como expectativa e receio. Uma frase escrita por mim é sempre um salto no desconhecido sem para-quedas, um mergulho num rio sem nome de águas profundas numa noite cerrada onde, no fim, fico mais espantado e pensativo do que enfadado e apático.

Quais são as suas referências literárias?

Digo sempre, com muito orgulho, que comecei a minha vida literária pela Poesia porque considero-a a essência suprema da vida e de todas as Artes. E por isso assumo como primeiras referências poetas que se transformaram em mestres da linguagem e do pensamento e artífices da palavra como Herberto Helder, Tagore, António Ramos Rosa, Khalil Gibran, Daniel Faria, Paul Celan, Cesariny, Fernando Pessoa ou Allen Ginsberg. Todavia, no que toca à prosa, destaco escritores que conseguiram fazer dos seus livros, exemplos de como se deve escrever e fazer dos livros literatura como Umberto Eco, Clarice Lispector, José Saramago, Franz Kafka, Carlos Ruiz Zafón ou José Luís Peixoto, apenas para citar alguns exemplos.

Como vê o mundo atual da Literatura em Portugal?

Nos últimos 18 anos tenho constatado no aparecimento de mais escritores cada vez mais jovens, sobretudo mulheres, a ter cada vez mais destaque e êxito na literatura contemporânea portuguesa e universal. Todavia, de todos aqueles que eu já li não encontrei um que fosse capaz de romper com as linguagens e filosofias das gerações que os antecederam – e como século passado – a ponto de inaugurar uma nova linguagem e uma nova forma de abordar, filosoficamente falando, a realidade capaz de inaugurar uma cultura virada para este século. Resta-me esperar.

Para quando um novo projeto editorial?

Comecei a escrever em janeiro o meu primeiro livro de contos, que espero vê-lo publicado no Outono e espero concluir o meu novo livro de prosa poética – que ando a escrever desde 2012 – antes do Verão deste ano.

Agora que já conhece a revista “Livros & Leituras” que opinião tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Apesar de vivermos numa era em que toda a informação é acessível à distância de um clique, existe muita Arte, muitas ideias e muitas linguagens emergentes que deambulam pelo limbo da indiferença de uma certa imprensa literária que parece ter parado no tempo e começou só a falar dos autores famosos e consagrados e das suas obras e a ligar pouca atenção ao que está ser feito de novo e inovador à margem da literatura contemporânea, tal como a conhecemos e concebemos. E por isso, revistas literárias, como a vossa, aparecerem em tempos de aparente indiferença, apatia e indigência, como estes, são como uma gota de água no deserto do quotidiano para todos aqueles que amam os livros, amam a literatura e continuam a acreditar na Cultura, enquanto bem essencial para a vida e formação cívica de um indivíduo e de um povo.

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