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domingo, 28 de março de 2021

Roteiro Literário: em busca de Franz Kafka

Foto com DR

Foram necessárias apenas 3 horas e 15 minutos de viagem. Desta vez, não houve lugar ao low cost da EasyJet ou da Rayanair, nem às habituais escalas em Paris, Viena ou Amesterdão. O voo direto – nesse dia – teve um carimbo com esfera armilar. Curiosamente, voamos num Airbus A320, batizado de José Saramago. Coincidências ou não, transportava na bagagem, para a habitual leitura de viagem, a nova edição de “O Ano da Morte de Ricardo Reis", adquirida semanas antes numa aliciante visita à Casa dos Bicos. Apesar de não concordar, para muitos críticos, este foi afinal de contas apenas o melhor romance de Saramago.

Já no ar, sentado confortavelmente, e sempre em boa companhia, sim porque é importante ter ao nosso lado uma pessoa com um dom singular para este tipo de aventuras, fez-se luz. Fui transportado para uma outra extensão. Para um novo sincronismo temporal. É que, minutos antes, tinha estado – na Portela – a fotografar o painel de azulejos que acolhe os passageiros e perpetua Bartolomeu de Gusmão. Sempre tive um fascínio pelo padre voador, inventor da Passarola, que Saramago confiou ao, também meu, “Memorial do Convento”. Meu? Sim! Assim, o admiro e considero!... O Convento de Mafra, lugar onde se desenrola grande parte da ação, foi também o meu domicílio durante alguns meses. A minha memória fotográfica, emanada pelo olhar clínico, ainda hoje, conserva muito bem os seus extensos corredores; os imponentes salões, que mais parecem grandes ginásios da era moderna; as frias cozinhas de mármore que acondicionam pias, caldeirões e enormes chaminés; os aposentos do Rei, revestidos por lindas e valiosas telas; os sumptuosos quartos de veludo, muito bem iluminados por gigantes janelas; os coloridos pátios; as escadarias; as celas; a fauna e a flora; o Alto da Vela; a Tapada Real e até algumas entradas que nos transportam para os túneis, lugares onde habitam e circulam as aceleradas ratazanas. Brevemente, o Roteiro Literário será dedicado ao Palácio de D. João V, mormente à sua fascinante biblioteca, uma das mais importante de Portugal. Que inaudita ideia, meu Deus!...

À nossa frente, bem juntos a uma das asas, encontrava-se comodamente estacionado um casal natural de Leiria. Chamou-me de imediato a atenção, não tivesse sido aquela cidade também o meu berço. Num duplo sentido, pois estava mergulhado em Saramago, pela conversa, apercebi-me que já tinham visitado Praga, mas parece que o fascínio por aquele lugar lhes prometeu e conferiu um regresso. Não que estivesse interessado naquela narrativa conjugal, mas confesso que aproveitei para tomar algumas notas de potenciais lugares a visitar. Transmitiam alguma sabedoria geográfica, simpatia e alegria. Foi reconfortante ouvi-los. Engraçados. Até a sua fisionomia alegrava os mais alheados. Eram diferentes. De estatura baixa, cabelos curtos e com um ar muito informal, aparentavam até duas figuras da literatura. A imaginação tem destas coisas… Ele usava chapéu com grandes abas. Parecia quase um cowboy, para não usar o termo boiadeiro. Moreno, gordinho, baixote e com uma proeminente barriguinha de cervejolas. Só falava na carência do “bago” para uma nova aventura pela Europa. Lembrei-me logo do Sancho Pança. Só lhe faltava o burrinho... Ao lado do “escudeiro”, desta vez, não estava D. Quixote. Ela, de pele clara, rosto bem rechonchudo, cabelo curto, enfeitado por algumas madeixas amareladas que serviam para ocultar os brancos, muito avantajada para os lados e para a frente, o que levou o companheiro a queixar-se de falta de espaço ao longo da viagem, evidenciava alguns lapsos linguísticos e até de memória. Em todo o trajeto, nunca conseguiu reconstruir, ao seu parceiro, as viagens passadas a dois. Porém, era a que mais dizia. Vestia de preto, tinha até um ar grosseiro e sombrio. A roçar no lúgubre. Repentinamente, esta imagem transportou-me para outra figura simpática dos livros. Lembrei-me de Maria da Piedade do conto “No Moinho”. Naquele voo, parecia eu que jornadeava pela mão do Cervantes e do Eça. Em toda a viagem, falaram das catedrais, dos museus, dos jardins, dos restaurantes, dos passeios no rio, das colinas de Praga… E eu a plagiar estas deslumbrantes ideias. Na conversa, nunca murmuraram uma única palavra literária que nos remetesse para Kafka. São gostos… E os gostos são como os cús, cada um tem o seu. Aliás, para o fim, cingiram-se às telenovelas e aos “fascinantes” episódios do Big Brother. Acabei por desligar da tomada e voltar a submergir em Saramago.   

Não houve lugar para qualquer speech do comissário de bordo. Subitamente, o comandante tomou as rédeas do refrão, tal como já o tinha feito anteriormente ao anunciar a velocidade de cruzeiro de 900 quilómetros hora e os 12 mil metros de altitude, e rebateu: “senhoras e senhores passageiros, vamos começar a descer em direção a Praga. São 23 horas e 5 minutos, mais uma hora que em Lisboa. Estão neste momento 10 graus célsius e o céu está ligeiramente nublado”. Afinal, estávamos no inverno. Nada que arrefecesse ou escurecesse a curiosidade de um novo roteiro. Estávamos de braços completamente abertos, preparados para agraciar aquela poeira celestial. Há muito que ardia em nós um secular desejo de conhecer Praga. Porém, a viagem sempre esteve encalhada como uma embarcação nos confins de uma singela oportunidade.

Ainda a aeronave não tinha repousado pés e asas no terminal 1 do Václav Havel, já a cultura e os imponentes edifícios arquitetónicos libertavam a sua fragrância. Tínhamos chegado à República Checa. Num primeiro instante, ainda afastados do centro, a noite parecia inclinada de melancolia, mas não. Praga acabara, desde logo, por se revelar uma cidade muito interessante. O seu brilho redondo e as suas catedrais quase que nos inclinavam os joelhos. Orate Frates. Os seus monumentos, nada afetados pela passagem e o desgaste do tempo, surgiam aos olhos dos visitantes muito iluminados, majestosamente espelhados pelas águas do rio Moldava (Vltava, para os checos). Objetivo? Apreciar aquela imponente arquitetura, consumir alguma da cultura local, saborear a sua típica gastronomia, visitar o Museu da Literatura e, obviamente, conhecer a Casa e o Museu de Franz Kafka. Demos corda aos ténis. A vontade de ver e conhecer era tanta que, subitamente, quase que perdemos o foco. Parecíamos anjos a transviar.

Praga é das capitais europeias com o maior número de bibliotecas. Talvez isso revele alguma coisa… Não acham? Parece que por lá, a célebre Primavera de Praga, liderada por intelectuais reformistas, surtiu os seus efeitos em vários setores da sociedade. E a cultura ficou muito bem posicionada nas duas margens do Vitava.

A primeira sensação causou-nos um arrepio súbito, mas bom. Um soluço calado na garganta. Embalados por uma das premissas pessoanas, em que se pudéssemos revelar os pensamentos e fazê-los viver, acrescentaríamos uma nova luminosidade às estrelas e uma nova beleza ao mundo, rapidamente colocamos as mochilas às costas e seguimos viagens, em direção à boémia central, também ela assente em diversas colinas que acabam por colorar o chão. 

Comparada com muitas outras que conheço, asseguro que Praga não é uma cidade muito grande, o que permitiu, no dia seguinte, visitar todo o centro histórico a pé. Monumentos, catedrais, pontes, jardins, bibliotecas, museus… Há de tudo um pouco. Para todos os gostos e vorazes apetites. Até a vida noturna é singular.

Situada no centro da Europa, acaba por receber muitas influências externas no que toca à gastronomia. Não é, por isso, de espantar que os cardápios patenteiem alguns dos seus vizinhos austríacos, alemãs e até húngaros. São mais fortes em pratos de carne, o que se percebe pela sua posição geográfica. A “svičková”, parecida com uma feijoada brasileira que o meu partner dos cozinhados gosta de confecionar, aqui, na célebre Toca da Lebre, é para degustar, sem qualquer tipo de receio.

O fim de semana XXL, em modo de miniférias merecidas, ficou reservado para o melhor – O Museu Franz Kafka e o seu roteiro pela cidade, com passagem pela sua casa. Situado junto à margem do rio, o pátio que recebe os visitantes acaba, desde logo, por se transformar num distinto cartão de visita. Logo à entrada, somos surpreendidos com as estatuas de dois homens a fazer xixi (para não escrever aqui, “mijar”) em cima do mapa da República Checa. É claro que tentei imediatamente saber o que aquilo tinha a ver com o escritor. Percebi que não era relativo a Kafka. Tratava-se de uma obra criada em protesto contra a corrupção que, ainda hoje, infelizmente, vigora no país. Menos mal. Pelo menos chama a atenção de quem passa e não se lembraria de entrar. Marketing? Também!

As referências biográficas e bibliográficas ao autor de “Metamorfose”, um dos títulos mais importantes para a literatura do século XX, são imensas, com aliás não poderia deixar de ser. Talvez o que mais me impressionou foi o espaço no edifício que põe em relevo todos os lugares de Praga citados na sua obra. Acaba por mostrar a influência que teve a cidade na construção das suas narrativas e, ao mesmo tempo, homenagear esses lugares mágicos e interessantes, traçados em roteiro. São vários. O museu é muito abastado e, ao longo dos tempos, tem sido enriquecido com novos documentos e objetos que compõem o seu espólio.  No seu interior, importa destacar – para mim o mais importante – os documentos inéditos que, no dia a dia, não nos saltam à vista com facilidade e muito menos à distância de um olhar em direto. Podemos encontrar até algumas primeiras edições dos seus livros. Há ainda cartas e os insubstituíveis diários que nos ajudam a construir a sua biografia e melhor perceber a obra. Há também alguns objetos pessoais, muitas fotografias e documentos inéditos. O museu é moderno e as suas instalações em 3D ajudam a perceber o percurso cultural deixado ao mundo por Kafka.

Mas o universo kafkiano, pela cidade que o viu nascer, não se resume apenas ao Museu e muito menos termina ali. Por perto, na outra margem do rio, os visitantes podem seguir o seu roteiro biográfico. Foi o que fizemos, sem perder esta oportunidade. É um autêntico livro dentro de um outro. Uma enciclopédia. Uma alquimia da literatura. Afinal de contas, quase todos os seus livros foram escritos ali. Pela cidade, naquele momento, quase de noite, equidistantes do poente e da aurora, não havia muito trânsito. Paramos por breves instantes no recanto de uma esplanada, o que nos permitiu beber um café quente e saborear umas perníks. Apesar de não ser propriamente um aficionado de bolachas, sempre adorei o sabor do gengibre, misturado com mel e canela. Não havia tempo a perder. A Si estava, aliás, com enorme curiosidade e não queria perder a oportunidade de absorver aquele trajeto altamente literário. A sua sensibilidade cultural tem esse magnetismo. O que é bom para quem a ladeia. 

Bora lá? Num passeio à luz das letras e da cultura? O protagonista desta história é, sem margem para qualquer derrapagem, a personagem mais memorável da cidade. O seu nome está por toda a parte, pois o seu coração sempre esteve destinado aos seus patrícios, por isso, conseguiu ver com amor as suas gentes, a sociedade e a geografia locais. O percurso foi fascinante. Parecia que tínhamos chegado a um outro lugar. A noite tem dessas coisas. A neblina de dezembro metamorfoseava os edifícios, emprenhando-os da majestade que não possuíam durante o dia. Eu levava na bagagem “O Processo” e a minha companheira tinha comprado “Um Médico Rural”. As duas obras, em inglês e alemão, quase confessionistas, são fulcrais para melhor se perceber, por exemplo, a angústia kafkiana. Estávamos sedentos e famintos para começar. Parecia até que nos encontrávamos iluminados pela claridade de uma voz que dizia: sigam o mapa!! É sempre em frente! O apetite para iniciar marcha foi canja, amigos. Acreditem!... Passada a ponte, começamos pela casa onde nasceu o escritor. Fica situada num quarteirão, junto à Igreja de Saint Nicholas. O edifício, entretanto reconstruído, é lindo e o seu interior recorda, em fotografias, o autor, a sua família e até a sociedade da época. De seguida, voltou-se a apoderar de nós a súbita vontade de mais um reforço de cafeina.  Rumamos até à praça velha e paramos no Grand Café Praha. Que se chegou a chamar Café Milena, em homenagem ao primeiro grande amor do escritor. Segundo reza a história, parece que o casal passava bastante tempo nas mesinhas da calçada. Visitamos depois o Café Louvre, por onde Kafka também parou. Aí, parece que esquematizou algumas das suas narrativas. O tempo passava num ápice. Já não fomos a tempo de entrar no cemitério Zizkov, onde repousam os seus restos mortais. Fica para a próxima!

Recomenda-se este Roteiro Literário.

Mário Gonçalves

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