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sexta-feira, 2 de abril de 2021

Roteiro Literário: Paris, o eterno repouso de uma lenda

                        Sepultura de Jim Morrison, Cemitério Père Lachaise, Paris. Foto com DR

Toc, toc… Acordei sobressaltado com aquele forte sonido que chegava da porta. Subitamente, julguei tratar-se de disparos de arma ou rateres que fugissem do escape de um movimentado bólide nalguma viela das redondezas. Ainda ensonado, de olhos semicerrados, atordoados por culpa de um pequeno corisco luminoso que chegava da frecha de uma janela, plantei-me a fitar algum movimento que se revelasse suspeito. Do leito da minha trincheira, tentei calmamente descodificar a sonoridade, apesar do cérebro ainda se encontrar a meio-gás, a funcionar quase a dois tempos. Confesso que, por breves instantes, não sabia muito bem onde tinha aterrado na noite anterior. A mobília era estranha e os diversos quadros, alinhados em fila indiana na parede, que mais parecia um desfiladeiro de formigas a tentar encontrar o caminho de regresso ao formigueiro, tinham aspetos diferentes dos meus. Até as molduras eram desiguais. Nunca os tinha visto maiores ou até mais gordos. E voltaram a bater à porta, sem dizerem uma única palavra… Estranho! És homem ou algum bicho medricas, pensei eu cá para os botões do meu pijama. De maneira nenhuma!... Enchi-me de coragem, até porque não havia tempo a perder. A avaliar pelo momento, pelos vistos, o dia prometia e iria ser certamente longo. Prolongado, seguramente. Nem o corpo nem a alma poderiam permitir tamanha fraqueza ou hesitação em semelhante ocasião. Para a frente é que era le chemin du roi, como ainda cantam os franceses. A indecisão durou apenas alguns segundos. Poucos. Levantei-me da cama com pezinhos de almofada, como se fosse ao encontro de algo paranormal, e apressei-me para a janela, afastando os cortinados roxos que alinhavam simetricamente numa parede acinzentada. A luz amarelada da rua iluminou todo o espaço. Reconheço que, na altura, o objetivo foi mostrar ao “visitador” que havia gente naquele lugar. De seguida, voei para junto da porta. Parecia um rouxinol-pequeno-dos-caniços a exibir o peito branco e a ganhar asas de condor. De ouvido à escuta, mas nada. Nada “memo”!... Enchi os pulmões de ar, dei dois fortes sopapos no peito, tipo Tarzan em boxer shorts, e foi então que resolvi abrir. Porém, novamente rien de rien. Personne. Nem uma sombra. Ainda atordoado, certamente devido ao Jet lag, que nem a chegada ao Charles de Gaulle soube apaziguar, olhei para o chão e vi apenas uma pequena caixa de cartão e um postal colorido de boas-vindas. No seu interior, podia ler-se: “Bem-vindo ao lugar que te viu crescer”. Um fantasma? Claro que não! Fez-se luz… Estávamos em Brie-Comte-Robert, às portas de Paris, em casa da família Ratão. Afinal, tinha sido apenas o simpatiquíssimo hospitaleiro Alberto a bater freneticamente à porta. Este carismático e invulgar nortenho de Bragança, amigo da família há décadas, quis voltar a surpreender, como era aliás seu apanágio. Dentro da personalizada caixa, com desenhos e algumas frases de encher os corações mais melancólicos, estavam à nossa espera dois legítimos e quentes croissants franceses. Eram estaladiços e laminados como manda a tradição, e tinham acabado de sair do forno. A dona Conceição sempre foi uma exímia chef de pastelaria, na arte de fazer croissants. Havia ainda – dentro da petite boîte – sumos de laranja, café da machine e o mapa de Paris. Nele, destacava-se a conhecida toile d´araignée, uma célebre rede de transportes de metro, comboios e autocarros, sobrepostos entre si, como se fosse precisamente uma teia de aranha.

Parece que voar a 35 mil pés de altitude dentro de uma caixa de metal com asas pode ter estes efeitos nalguns cérebros pensadores – Emoções ao rubro e imaginação q.b para todos os paladares.

O mapa era o que nos faltava (direi até: salvava) para completar mais uma literária missão. Na noite anterior, já tínhamos mapeado percursos, confirmado trajetos, afinado horários e acertado, em comum acordo, os lugares onde deveriam ser degustadas as tradicionais refeições do dia, servidas nalguns bistrots de Paris. As minhas viagens literárias sempre foram preparadas e planeadas com algum rigor, e esta não foi exceção. Tínhamos pensado em tudo. Até mesmo nos temas musicais de embalar, que acabariam por compor, por prolongados instantes, a romântica noite de amor, antes da partida rumo ao 20.º arrondissement, na margem direita do rio Sena. “Morrison Hotel”, o 5.º álbum de estúdio dos The Doors, foi a escolha acertada. A sugestão partiu da Si por se tratar de um disco composto por melodias calmas, assentes num estilo tipo blues. Além disso, esse disco foi lançado em 1970, ano do meu nascimento. Afeiçoada, querida e amorosa esta opção, não acham?

Com o pequeno-almoço nas muito elegantes e sorridentes barriguinhas, partimos em direção ao centro da cidade luz, o ícone mundial da liberdade, abrigo literário dos maiores escritores da história universal. Comprar um bilhete de metro que permitia circular sem limitações durante todo o dia, acabaria para ser a opção mais prática e económica.

Depois de uma viagem pelo métropolitain de Paris e da paragem obrigatória numa série de estações, embalados pela musicalidade de alguns artistas de rua e seus acordeões, chagamos ao destino. A Estação Père Lachaise fica situada lá para os lados da avenida Gambetta, entre o 11.º e 20.º bairro parisiense, a leste da capital. É fácil lá chegar, através das linhas 2 e 3 do metro.

Pela alma poética dos defuntos, fizemos uma importante romagem literária, há muito agendada, ao Cemitério Père-Lachaise, o mais famoso do mundo. Junto à sua monumental porta de entrada, toda ela aprumada em estilo neoclássico, certamente para bem receber os visitantes, encontramos um grupo de franceses que nos indicou uma loja, mesmo em frente, onde poderíamos adquirir o mapa de todo aquele gigantesco espaço. Afinal, eram apenas 44 verdes hectares de famosos túmulos, uma antiga propriedade do sacerdote François Lachaise, conselheiro espiritual do Rei Luís XIV. Sem a preciosa ajuda dessa planta, seria difícil redescobrir Molière, Oscar Wilde, Daudait, Balzac, La Fontaine, Proust ou o Nobel Sully Prudhomme, para falar apenas destes.

O acesso é gratuito. Quem quiser tomar-lhe um bafo mais musical, é recebido logo à entrada pelo Chopin ou então só tem de rastrear esta autêntica carta topográfica e subir por um labirinto de traçados caminhos até ao topo, onde nos podemos cruzar, por exemplo, com “Casta Diva” e “La Vie En Rose”… Ou melhor, com Maria Callas e Edith Piaf, respetivamente.

A manhã era de inverno. Não chovia, mas estava frio. As árvores, aos milhares, repousavam caladas em sazonal nudez. O silêncio era contaminante e o nosso, rico em cumplicidade. Havia que aproveitar cada instante. Afinal de contas, “a literatura não é algo que nos faça feliz, mas ajuda a defendermo-nos da infelicidade”. Não é, Vargas Llosa?

Logo a partir da entrada do cemitério, percebe-se que não estamos num lugar trivial. O cemitério dá nas vistas. Limpo, cuidado e arrumado. Tudo parece ter sido considerado. Além de encanto, o espaço transmite-nos um repousante conforto. Os bancos de jardim que dão azo ao descanso, à meditação e até a demoradas leituras, são disso exemplo.

Nem sempre se fala no assunto, certamente por roçar, quiçá, um pouco no mórbido, mas existe, por este mundo fora, a chamada arte tumular, um dom artístico que poucos conhecem. Por isso, o Père Lachaise é também muito procurado por centenas de amantes deste primoroso conceito escultório a céu aberto. Lá dentro, estamos assim na presença de interessantes monumentos arquitetónicos, com a vantagem de preservarem os restos mortais de muitas eternas personalidades da nossa História. Dizem os especialistas que este tipo de cultura não deve ser temido. Deve-se contemplar, num continuado silêncio, com ouvidos e olhos de ver. Este valioso acervo representa quase sempre uma grande diversidade de temas. Do amor à saudade, passando pelo sofrimento, tristeza, solidão, nobreza e respeito. Eles são o espelho dos defuntos. Servem essencialmente para dar outro sentido e completar momentos de vidas passadas.

Estruturar um roteiro literário sobre o Père Lachaise dava um livro quase do tamanho do cemitério. Nada melhor do que lá voltar e narrar outro grande vulto da nossa cultura literária.

Hoje, ficamo-nos por James Douglas Morrison, mais conhecido por Jim Morrison (1943-1971). E começamos com ele porque é uma das principais atrações do Père-Lachaise. A campa do ex-vocalista dos The Doors é das mais visitadas. Das duas vezes que percorri este magnifico cemitério, o mais apreciado do planeta, cruzei-me com alguns dos seus fãs. De joelhos, rezavam profusamente. Outros, choravam. Havia os que murmuravam e até alguns que cantavam baixinho algumas das suas músicas. A extravagante euforia já levou alguns entusiastas do cantor mais icónico da história do rock a profanarem, com grafitis de mil e uma cores, o seu túmulo, o que obrigou a Câmara Municipal de Paris a cercar o lugar com baias e até a colocar junto à campa um polícia, durante alguns fins de semanas mais concorridos. Apesar de Jim não ter culpa na matéria, há já quem diga que ele é o pior hóspede do cemitério. Ali e em todo o mundo ainda existe quem venere Morrison como um fruto de um ramo cimeiro que a mãe-natureza quisesse amadurecer eternamente.

Quando chegamos junto à campa, somos acolhidos por um sarcófago muito simples, como simples foi também toda a sua vida. Porém, é dos mais concorridos. Os seus fãs deixam no local, em jeito de uma profundíssima homenagem, um pouco de tudo. Velas, muitas flores, fotos, pequenos objetos e dezenas de mensagens.

Nem todos sabem, mas além de estarmos perante uma lenda do Rock, compositor de ousada performance e incomparável voz, este norte-americano de Melbourne foi igualmente um exímio pensador e um poeta por excelência. Aliás, muitos críticos defendem que este artista eletrizante terá sido lançado para a música por acidente. Infelizmente, ao longo dos anos, a sua lírica tem sido ofuscada pelas suas fabulosas músicas, o que percebo e entendo, mas não aceito. Ele próprio se considerou, mais do que uma vez, um escritor, antes de tudo. É nessa perspetiva que lhe presto hoje tributo neste Roteiro Literário.

Começou a escrever poesia aos 15 anos, o que terá logo maravilhado familiares e amigos próximos. Redigiu também imensas cartas e diversos diários. Documentos recheados de uma formosa musicalidade poética que acabam por ajudar a perceber a sua invulgar idiossincrasia. Na escola, por ocasião de um teste ao seu QI, obteve 149 pontos. Importa salientar que a partir de 144, o mais alto da tabela QI, é considerado um génio. E ele era, sem dúvida, de facto, um grande génio. Foi um dedicado estudante de filosofia, psicologia, teatro e cinema. Isso refletia-se em palco, por vezes, até exageradamente, ao ponto de ter sido preso um dia por exibir os seus órgãos genitais. Passava grande parte do seu tempo a ler, a pensar, a refletir sobre o alento da vida e a escrever. Apesar do seu caminho extravagante e boémio, marcado por elevados consumos de álcool e drogas, Jim Morrison deixou uma impressionante obra literária, apenas conhecida do grande público já a título póstumo. Em vida, o autor só assistiu à publicação de dois livros: “The Lords / Notes on Vision” e “The New Creatures”. Estas duas narrativas, a segunda mais poética, estão assentes na forma como ele via a vida, nos seus pensamentos e na sua sociedade a movimentar-se por tempos e lugares.

O poeta fez sempre uso de uma versificação plurissignificativa e multifacetada. A articulação que conseguiu impor entre cada vocábulo, acabou por abrir portas a uma multiplicidade de gostos. O objetivo é, certamente, permitir a cada leitor-viajante caminhar pela estrada que melhor lhe convier. O seu verso é leve, curto e direto, o que contrasta com o peso da sua descodificação. Esta surge quase sempre muito trabalhosa e muitas vezes gravativa. Por vezes, também gradativa. Jim Morrison nunca nos ofereceu um "aqui está" (voilà, para os franceses). Um poisson de mão beijada. Deu-nos a cana para o pescarmos, como nos remete o célebre adágio japonês.

O escritor Rogério Almeida, que escreveu o livro “O Dia em que Conheci Jim Morrison”, assegura também ele que estamos perante uma “narrativa dinâmica e intrigante”, onde se “joga com o sonho e o pesadelo, o inconsciente e a realidade, fundindo o pop e o poético, por meio de uma lírica furiosa e arrebatadora”.

A sua poesia, fortemente marcada pelo misticismo, reforçou-se a partir da altura em que se mudou para Paris com o seu amor cósmico, Pamela Couson. Jim Morrison passou a dedicar-se, a tempo inteiro, à escrita. Embora não se saiba ao certo, mas tudo indica que o escritor terá sido influenciado pelas presenças de alguns dos seus compatriotas na capital francesa. O livro “Escritores Americanos Em Paris", da autoria de Christopher Sawyer-Laucanno, retrata muito bem, ao longo de mais de 350 páginas, a presença de muitos dos vultos da literatura americana, a viverem na cidade luz, entre 1944 e 1960. Ernest Hemingway é disso exemplo.

A poética de Morrison ainda hoje é avidamente lida e estudada em vários países do mundo. O escritor conseguiu – em cada frase – galvanizar toda uma geração. Ainda hoje, continua a fascinar milhões de fãs, nos quatro cantos do planeta.

Começou por ficar hospedado no Hotel George V, situado na avenida parisiense com o mesmo nome. Mudou-se depois para o Hôtel de Médicis. Mais tarde, foi uns dias para o l' Hôtel, situado na Rue des Beaux Arts. Curiosamente, pernoitou algumas noites no segundo andar desse hotel, precisamente no quarto onde morreu Oscar Wilde. Até que alugou um apartamento. Era um terceiro andar, situado no n.º 17 da Rue Beautreillis, entre o rio Sena e a Place de La Bastille. Uns largos anos antes, tinha vivido nessa rua, no n.º 22, o poeta Charles Beaudelaire. Assim como o dramaturgo francês, Victorien Sardou, no n.º 16.

Como recordação da sua presença em Paris, correm na web algumas fotografias de Jim Morrison e Pamela, tiradas a norte da capital, em Saint-Leu-d´Esserent, por Alian Ronay, um fotógrafo amigo do poeta-cantor. Surge sempre em total cumplicidade com o seu grande amor. Consta que são as últimas tiradas ao poeta.

Infelizmente, morreu muito novo. Tinha apenas 27 anos. Assassinato, suicídio, overdose ou ataque cardíaco? Teorias da conspiração surgiram em catadupa, até porque os amigos mais próximos só conseguiram ver o caixão quando este já estava lacrado. Ainda hoje não se sabe ao certo o que terá acontecido, a 3 de julho de 1971, na banheira do seu apartamento. Talvez tenha sido uma má aposta de Morrison ter-se mudado para Paris, numa altura em que a cidade estava verdadeiramente empestada por lotes de heroína em elevado estado de pureza. Veneno que acabaria por matar, três anos mais tarde, por overdose, a sua companheira, Pamela Couson.

Partiu o homem e o seu incalculável talento, mas ficou a obra. E essa, nunca morre!!

“Se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que se sentem.” (Jim Morrison)

Aconselha-se este Roteiro Literário.

Mário Gonçalves


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