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terça-feira, 11 de maio de 2021

Receitas literárias: Lombo assado n´A Relíquia do Eça

Ingredientes:

1 Kg de lombo de porco

1 farinheira

Vinho branco

1 cebola

5 dentes de alho

Alecrim

Louro

Sal de ervas

Pimenta preta

Azeite

 

Preparação:

Há várias formas de confecionar o lombo de porco no forno. Aqui vai a minha receita que repito regularmente na Toca da Lebre. Com a ajuda de uma faca grande, deve começar por perfurar, ao centro e na longitudinal do lombo, um orifício que possibilite a colocação da farinheira. Não tenho por hábito abrir pela lateral o lombo. Isso evita que a farinheira se escape do interior da carne. Retire a pele à farinheira e coloque-a no interior do lombo. Deixe-o marinar, pelo menos duas horas, no vinho branco, alho picado, pimenta preta, louro, alecrim e sal de ervas a gosto. Coloque num tabuleiro alguns ramos de alecrim a fazer de cama. A ideia é a carne não estar em constante contacto com o molho e que asse em vez de cozer. Pique uma cebola e coloque sobre o alecrim. Adicione, de seguida, um pouco da marinada e finalmente o lombo. Regue a carne com um pouco de azeite. Leve ao forno, previamente aquecido, a 180 graus. Deverá virar regularmente a carne e regá-la constantemente com o molho. Poderá ter como acompanhamento umas batatinhas assadas junto ao lombo. É divinal, pois a farinheira evita que a carne fique muito seca.

História:

A Relíquia

Eça de Queirós é conhecido por abordar, nas suas obras, temas marcantes do quotidiano social do século XIX. O escritor foi o principal representante do Realismo português. As suas prosas são repletas de ironia, humor e crítica social. Quase nada escapava a Eça. Apesar de muitos o considerarem um antipatriota, eu sempre achei que ele era precisamente o contrário: um pró-pátria. A sua crítica acutilante era apenas para ajudar a tentar mudar os males que minavam (e minam) a sociedade portuguesa. Como diplomata que foi, o autor conhecia outras realidades bem mais agradáveis e gostava que a sua Pátria fosse assim. Paris, onde viveu, é disso exemplo. “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio”, “Os Maias” e "A Relíquia" são alguns dos livros onde Eça foi mais sarcástico em relação a algumas classes sociais da época.

Seja como for, nunca esqueceu a sua gastronomia. N´A Relíquia, obra publicada em 1887, Eça de Queirós resolve destacar o lombo assado. A palavra surge uma única vez:  

“(...) Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me ver lá muito longe, na Arábia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso de um camelo, um montão de ruínas em torno de uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céu arqueia-se mudo e triste como a abóbada de um túmulo. Assim devia ser Jerusalém. (...)”

Os Maias

O lombo de porco que tanto Eça gostava surge também referido n´Os Maias. Aparece uma única vez, mais para o final da obra, numa abordagem ao excêntrico João da Ega, amigo e confidente de Carlos da Maia:

“(...) Ega acendeu o charuto, ficou um momento considerando aqueles sujeitos que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise arrastara a Lisboa, arrancara á quietação das vilas e das quintas. O mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de porco (...)”.

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