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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Receitas Literárias: Ovos com chouriço à moda do Eça


Ingredientes:

1 chouriço

5 ovos

2 fatias de fiambre

2 fatias de queijo

½ ramo de salsa

Orégãos

Azeite

Sal

Pimenta preta


Confeção:

Comece por cortar o chouriço às rodelas, o fiambre e o queijo aos cubos e pique muito bem a salsa. Reserve tudo. Bata os cinco ovos e adicione os restantes ingredientes. Tempere com orégãos, sal e pimenta preta a gosto. Misture muito bem todo o preparado e frite-o, num fio de azeite, numa frigideira a meio lume. Mexa bem e servia com uma boa salada de alface.

Não me parece que Eça de Queirós colocasse fiambre e queijo nos seus ovos com chouriço. O escritor-gastrónomo era muito rural na alimentação para roçar nesta tentativa de gourmet. Seja como for, aqui fica a minha receita. Espero que gostem. Acredito que o Eça gostaria. Era um bom faca e garfo.

História:

Hoje, voltamos ao pai do Realismo português para recordar que Eça de Queirós foi igualmente um grande apaixonado pelos ovos. Nas suas obras, encontramos ovos para todos os gostos. N´A Correspondência de Fradique Mendes, Eça chega até a desejá-los bem frescos: “Como ela gostava de comer ovos bem frescos…” Na Cidade E As Serras conseguiu até arranjar uma comerciante de ovos: “Uma velha vendedora de ovos”. Nas suas narrativas, encontramos ainda os ovos moles de Aveiro; ovos moles nacionais, ovos estrelados, ovos queimados e, claro está, ovos (mexidos) com chouriço. Esta última iguaria surge três vezes na Ilustre Casa de Ramires, duas vezes n´Os Maias e uma vez n´A Capital. 

Com tanta experiência na confeção de ovos, será que Eça soube quem nasceu primeiro?

A Ilustre Casa de Ramires:

“(...) E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e íngreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa iluminada por dois candeeiros de petróleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até os Bravais e pelas emoções do voltarete em que ganhara dezanove tostões ao Manuel Duarte — começou por uma pratada de ovos com chouriço (…)

“(...) É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino... Sobretudo o pepino! Uma ideia daquele animal do Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou otimíssimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de chá verde, muito forte... Leva também torradas. (…)”

“(...) Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche, era ele que os representava em Cortes, ele, Gonçalo Mendes Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus! Porque já as ideias o invadiam, viçosas e férteis. Na Vendinha, enquanto esperava que lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de sável, meditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um esboço sombrio e áspero da nossa Administração na África. (…)”

Os Maias

“(...) O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado, - mas, como era cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bela pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia anos, e que lhe daria a sensação de estar na aldeia... Quando o patrão, com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a mesa sem toalha a enorme travessa com o petisco, Cruzes esfregou as mãos, achando aquilo deliciosamente campestre. (…)”

“(...) Os cavalos tinham descansado, Cruzes pagou a conta, partiram. D'ali a pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindável. De ambos os lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um azul sem fim, que n´aquela solidão parecia triste também. O trote compassado dos cavalos batia monotonamente a estrada. Não havia um rumor: por vezes um pássaro cortava o ar, n'um voo brusco, fugindo do ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruzes, pesado dos ovos com chouriço, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavalos. (…)”

A Capital

“(...) ― O Rabecaz encomendou à Mariquitas, sobrinha da Corcovada, «a bela fritada de ovos e chouriço, e dois meios litros reais. (…)”

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